segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

UM CLÁSSICO - "LUTO E MELANCOLIA"


Sem qualquer veleidade de conhecimento em psicanálise, pelo motivo mesmo de me faltar tal horizonte, tomo, cheio de respeito, o bonito volume editado pela Cosacnaify de “Luto e Melancolia”, de Sigmund Freud. Tradução preciosa de Marilene Carone, vem acrescido de vários textos de especialistas, a enriquecer e dar corpo ao livrinho. E vem, sobretudo, com uma riqueza exclusiva: sublinhado a lápis por meu irmão, em vários trechos que julgou dignos de destaque. Presente inestimável!
                Devíamos todos os humanos ler este livrinho, que na verdade não passa de um longo artigo. Longo, elegante, requintado na forma e no conteúdo, uma lição de como se pode domar o pensamento e a palavra e colocá-los a serviço da perspicácia, da sabedoria, da criatividade, da arte. Vai muito além da distinção instrutiva (e útil!) entre luto e melancolia – que são bem opostos, muito mais do que as aparências indicam. Faz por exemplo este comentário, retirado de outro texto, a respeito daquilo que todos procuramos, às vezes obsessivamente:

... podemos dizer que a intenção de que o homem seja feliz não se acha no plano da ‘Criação’. “

                Fica o ensinamento: o luto não é doença, resolve-se por si, pois permanece na camada do ego consciente; a melancolia/depressão se volta para o inconsciente e esconde uma raiva, narcisismo disfarçado.  Na queixa  do melancólico se oculta uma acusação.
Não é só para se concordar, é para se pensar. Como esta consideração do implacável conhecedor da alma humana, a propósito do melancólico que vive a se depreciar:

“Quando, em sua exacerbada autocrítica, ele se descreve como um homem mesquinho, egoísta, desonesto e dependente, que sempre só cuidou de ocultar as fraquezas de seu ser, talvez a nosso ver ele tenha se aproximado bastante do autoconhecimento e nos perguntamos por que é preciso adoecer para chegar a uma verdade como essa.”

                Luto e Melancolia” é desses textos a que se deve voltar. É muito provável que cada deslumbrado leitor encontre outros ângulos e modos de o ler. E que eu mesmo, quando o reler, venha a escolher outros ainda. É por isso que se trata de um clássico. Obrigado, irmão.

KLASIKAĴO – “FUNEBRO KAJ MELANKOLIO”

                Sen ia prretendo pri scio pri psikanalizo, pro la motivo mem, ke mankas al mi tia horizonto, jen mi prenas respektoplene la belan volumon eldonitan de Cosacnaify de “Funebro kaj Melankolio” , de Sigmund Freud. Rafinita traduko al la portugala lingvo de Marilene Carone, ĝi enhavas krome plurajn tekstojn de fakuloj, kiuj pliriĉigas kaj enkorpigas la libreton. Kaj precipe ĝi enhavas ian ekskluzivan riĉaĵon: pluraj linioj substrekitaj de mia frato, kie li trovis ilin elstarigindaj. Nekalkuleble valora donaco!
                Ĉiu homo devus legi ĉi tiun libreton, kiu fakte estas nur longa artikolo. Longa, eleganta, rafinita laŭforme kaj laŭenhave, ia leciono pri tio, kiel eblas dresi la penson kaj la vortojn kaj metis ilin je la servado de subtileco, de saĝeco, de kreemo, de arto. Ĝi trafas trans la instruan (kaj utilan!) distingon inter funebro kaj melankolio – kiuj estas ja kontraŭaj, multe pli ol tion ŝajnigas supraĵa rigardo. Ĝi ekzemple faras ĉi tiun komenton, prenitan el alia teksto, pri tio, kion ni ĉiuj serĉadas, foje obsede:

“... oni povas diri, ke la intenco, ke la homo estu feliĉa, ne troviĝas en la plano de la ‘Kreado’.”

                Restas la nocio: funebro solviĝas per si mem, ĉar ĝi lokiĝas en la tavolo de konscia egoo; melankolio/depresio revenas al la nekonscio kaj kaŝas koleron, narcisismon aliformitan. Ĉe la plendado de melankoliulo kaŝiĝas akuzado.
                Oni ne devas simple konsenti pri tio, oni devas pensi. Same kiel pri ĉi tiu konsidero de la senindulga konanto de la homa animo, rilate al la melankoliulo, kiu konstante sin malŝatas:

“Kiam, en sia intensa memkritikado, li sin priskribas kiel malindulon, egoiston, malhonestulon kaj dependulon, kiu ĉiam nur zorgis pri kaŝado de siaj propraj malfortecoj, eble niaopinie li sufiĉe alproksimiĝis de memkono, kaj ni demandas nin mem, kial necesis malsaniĝi por atingi tian veraĵon.”

“Funebro kaj Melankolio” estas unu el tiaj tekstoj, al kiu oni devas reveni. Estas tre probable, ke ĉiu alia ravita leginto trovos aliajn angulojn kaj legmanierojn. Kaj ke mi mem, kiam mi relegos ĝin, elektos ankoraŭ aliajn. Pro tio temas pri klasikaĵo. Dankon, frato.

7 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. Ótimo texto, fica claro que apesar da modernidade dos medicamentos ha situações que precisam ser vividas outras tratadas. O luto é bom e precisa ser vivido!
    Um salves as pessoas que conseguem exprimir em palavras temas de tao difícil compreensão. Parabéns Tio.

    ResponderExcluir
  3. Ótimo texto, fica claro que apesar da modernidade dos medicamentos ha situações que precisam ser vividas outras tratadas. O luto é bom e precisa ser vivido!
    Um salves as pessoas que conseguem exprimir em palavras temas de tao difícil compreensão. Parabéns Tio.

    ResponderExcluir
  4. Isso mesmo, Paulo, requinte na forma e conteúdo! Além da originalidade e profundidade de pensamento. Coisa de gênio!

    ResponderExcluir
  5. Pelo que entendi, o luto é um mal necessário que precisa ser vivido! Grande Freud!

    ResponderExcluir
  6. Muito profundo para uma leitura superficial. E preciso ler-se as entrelinhas...
    Obrigada pelo belo presente!

    ResponderExcluir
  7. Pretendo ("prretendo") chamar a atenção para um r intruso na versão em Esperanto. Em nada diminui a elegância da resenha, enxuta, indicativa, instigante, que aguça no leitor o desejo de ter em mão o livrinho (diminutivo afetivo) em pauta. Luto - o respeito a si mesmo ante o irreversível, como a "Indesejada das Gentes", na deliciosa expressão de Manuel Bandeira. Melancolia - bílis negra a nos devorar o psiquismo, ausência de amor. Resenha boa é a que nos convida à leitura do Pai da Psicanálise. Excelente!

    ResponderExcluir