domingo, 9 de novembro de 2014

LIBERDADE


Ao fim do dia os passos se tornam  lentos,
sólidos, a bater o chão  com a correta presteza,
como em obediência  a um rumo muito antigo,
isentos de busca,
libertos de indagação.
Ao fim do dia os olhos já não perscrutam,
apenas divisam os justos contornos,
como a traçar as coisas do mundo que sempre existiram,
desapegados da  luz,
ao largo da sombra.
Ao fim do dia as mãos seguram com calma o bastão,
amolentadas por doce fadiga,
como cordas que amarram navios, num cais deserto,
esquecidas de sua função,
desenoveladas.
Ao fim do dia, após o trabalho,
o homem pode enfim respirar,
comer um prato, beber um copo,
sentar-se, arriscar um palpite sobre o tempo.
Já não é preciso explicar a vida.


LIBERECO

Je la fino de la tago la paŝoj fariĝas malrapidaj,
solidaj, kaj frapas la grundon per ĝusta lerto,
kvazaŭ ili obeus  tre antikvan direkton,
sen serĉado,
liberaj de demandoj.
Je la fino de la tago la okuloj jam ne gvatas,
apenaŭ duonvidas precizajn konturojn,
kvazaŭ ili strekus tion, kio ĉiam ekzistis en la mondo,
senatentaj pri lumo,
preter ombro.
Je la fino de la tago la manoj trankvile tenas la bastonon,
moliĝinte de dolĉa laceco,
kvazaŭ ŝnuroj ligitaj al ŝipoj ĉe  senhoma kajo,
kiuj forgesis sian celon,
malbobenitaj.
Je la fino de la tago, post la laboro,
homo  fine povas spiri,
manĝi la enhavon de telero, trinki la enhavon de glaso,
sidi, riski prognozon pri la vetero.
Jam ne necesas ekspliki la vivon.

5 comentários:

  1. Je la fino de la tago, eblas la sento pri plenumeco, pri tutaĵo, pri lumo fine akirita, libero! Tiam, fine, poezio ekestas. Absolute! Bele!

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  2. Emocia portreto de ia plena ekzistado kiel adiaŭanta tago tute libera por ĝui la vivon.

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  3. Lindíssimo! Mas o último verso é a perfeição, em todos os sentidos. Vai pro livro, Paulo!

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  4. Belo jogo de palavras, para retratar um dia, uma vida. Não domino o esperanto, mas o penúltimo verso sobre o palpite do tempo possui uma dupla conotação em português que, creio, não há no esperanto. Ou estou enganado?

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