sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

calçada de nuvem

 
PSVfev2025
 

Calçada de nuvem,

de lua vestida,

ouviu no caminho

segredos da vida.

 

Então conheceu,

pairando de leve,

que a paz desejada

aos pés sempre esteve...

 

E a lua, sorrindo

sorriso de alvura,

foi junto com ela,

luzindo ternura.

 

 

En ŝuoj  el nubo,

per Luno vestita,

ŝi aŭdis  survoje

sekretojn, ravita.

 

Ŝi tiam eksciis,

dum ŝvebado,  lude,

ke paco revata

troviĝas apude...

 

Kaj Luno ridetis

ridetan parfumon,

kaj kun ŝi plu iris,

en arĝenta lumo.


 

 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

certo homem poderoso

PSV jan2025 
 
 

 

Certo homem poderoso

me declarou com desdém:

“Não preciso de você,

nem preciso de ninguém!”


E mais: “O mundo é do forte,

nunca será ao contrário.

Eu estou à sua frente,

e você, retardatário.”

 

Voltei à casa, a pensar

que aquele homem, no topo

da sua grande arrogância,

nunca tinha lido Esopo.

 

E lhe enviei por correio,

numa folha, escrita à mão,

a fábula conhecida:

“O camundongo e o leão”.  

 

 

Forta homo tre potenca

al mi diris, tre severe:

“Mi vin tute ne bezonas,

fakte neniun, cetere!”

 

Kaj pli: “La mond’ apartenas

ĉiam al tiuj plej fortaj.

Mi iras do avangarde,

postrestu la malbonsortaj.“

 

Mi hejmen venis, pensante,

kaj tiu penso min regis,

ke tiu arogantulo

Ezopon neniam legis.

 

Mi do sendis per la poŝto,

kiel ĝentila persono,

al li, manskribe, la fablon:

”La muso kaj la leono“.


 

domingo, 26 de janeiro de 2025

repetir

 

PSV jan 2025 
 
 
 

Tomou nas mãos um livro antigo, lido há mais de quarenta anos. Na época, o encanto lhe fora arrebatador. Agora, percorria as linhas sinuosas com um novo e desconhecido olhar, mais calmo, diverso, variegado. Ali estava um novo livro, e um novo leitor, ambos melhores. Repetir era uma revelação.

Ao contemplar a chuva espessa do verão, pontilhada por clarões solenes no céu, recordou a tempestade assustadora que presenciara, angustiado,  em outro verão,  havia mais de quarenta anos. E voltou a sentir a mesma visita sinistra de um pensamento opressivo, disforme, corrosivo. Caía agora a mesma chuva antiga, diante dos mesmos olhos turvos de então. Repetir era um atavismo doloroso.

É preciso aprender a repetir, sem repetir.

 

 

ripeti

 

Li prenis en siajn manojn malnovan libron, legitan antaŭ pli ol kvardek jaroj. Siatempe, la raviĝo tute kaptis lin. Nun, li sekvis la sinuajn liniojn per nova, nekonata rigardo, pli trankvila, diversa, bunta. Jen tie troviĝis ia nova libro, kaj ia nova leganto, ambaŭ pli bonaj. Ripeti estis ia revelacio.

Komtemplante la densan someran pluvon, punktitan per solenaj flagroj sur la ĉielo, li ekmemoris la timigan tempeston, kiun li ĉeestis en alia somero, antaŭ pli ol kvardek jaroj. Kaj li sentis denove la saman mornan viziton de premanta penso, misforma, koroda. Nun faladis la sama antikva pluvo, antaŭ la samaj iamaj okuloj malklaraj. Ripeti estis dolora atavismo.

Estas necese lerni ripetadon, sen ripetado.


domingo, 19 de janeiro de 2025

palavras

 

PSV jan2025


As palavras têm força. O dicionário Oxford escolhe sempre a Palavra do Ano, que ajude as pessoas a refletir sobre si e o mundo à sua volta. Em 2024, a mais votada foi a expressão de “brain rot” (“apodrecimento cerebral”). Refere-se ao empobrecimento mental causado pelo uso excessivo das redes sociais. Uma preocupação da sociedade britânica, talvez europeia, talvez mundial.

Também no Brasil se escolhe atualmente a Palavra do Ano. Em 2024, a escolhida foi “ansiedade”. Dizem que a população brasileira se encontra entre as mais ansiosas do mundo. Pode-se esperar que a palavra eleita nos ajude a pensar sobre isso?

Também em Portugal. A Editora Porto publicou a Palavra do Ano 2024, em alusão aos 50 anos da Revolução dos Cravos, de 25 de abril, que pôs fim ao sombrio período da ditadura salazarista: “Liberdade”. Uma bela escolha. Afinal, sem liberdade não é possível qualquer enriquecimento mental, nem aquisição de serenidade. A velha sabedoria lusitana...

 

vortoj

 

Vortoj havas forton. La vortaro Oxford ĉiam elektas la Vorton de la Jaro, kiu helpas homojn pensi pri si mem kaj pri la mondo ĉirkaŭ si. En 2024, la plej multajn voĉdonojn ricevis la esprimo “brain rot” (“cerbo-putriĝo”). Ĝi aludas al la mensa malriĉiĝo kaŭzata de troa uzado de interretaj sociaj retoj. Zorgemo flanke de la socio brita, eble eŭropa, eble tutmonda.

Ankaŭ en Brazilo oni nuntempe elektas la Vorton de la Jaro. En 2024,la elektita estis “anksio”. Oni diras, ke la brazila loĝantaro troviĝas inter la plej anksiaj en la mondo. Ĉu oni rajtas esperi, ke la elektita vorto helpos nin pensi pri tio?

Ankaŭ en Portugalujo. Eldonejo Porto publikigis la Vorton de la Jaro, alude al la 50 jaroj post la Revolucio de Diantoj, de la 25-a de aprilo, kiu metis finan punkton al ombra periodo de Salazar-diktaturo: “Libereco”. Bela elekto. Cetere, sen libereco ne estas ebla ia ajn mensa riĉiĝo, nek alpreno de sereneco. La antikva saĝo luzida...

sábado, 28 de dezembro de 2024

Ano Novo

PSVdec2024

 

Já se finda o ano velho,

Ano Novo se apresenta.

só mudou o calendário,

e o  pouco que representa.

 

Todos preveem, felizes,

a paz e a felicidade,

mas o caminho que seguem

é sempre igual, na verdade.

 

A gente faz muitos planos,

e  de promessas, mancheia,

que serão logo esquecidas

como castelos de areia.

 

Felicidade não vem

da folha do calendário,

mas da construção diária

de um mundo mais solidário.

 

 

Nova Jaro

Forpasas jaro malnova,

naskiĝas la Nova Jaro.

Nenia drasta ŝanĝiĝo,

 ŝanĝiĝas nur kalendaro.

 

Homoj aŭguras feliĉon,

Pacon, prosperon kaj ĝojon,

Sed iliaj paŝoj, daŭre,

Sekvas ĉiam saman vojon.

 

Ili faras siajn planojn,

Kaj multajn promesojn belajn,

Sed baldaŭ  ilin forgesas

Kiel nur kartonkastelajn.

 

Feliĉo certe ne venas

De folio kalendara:

 ĝi rezultos de laboro

por mondo pli solidara.

 

 


 


 


quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

jazz e chuva

 

PSVdez2024

 

num canto da noite chuvosa

o jazz cortou a fala agitada das gentes

com a  ondulação solene das dissonâncias

 

soaram entre as gotas nas folhas das árvores

infindáveis   argumentos improvisados

ansiosos acordes indecifráveis

 

a música a competir com a fala aflita das gentes

o jazz e a vida

a inquieta alma dos homens

a serenidade da chuva mansa

 

ĵazo kaj pluvo

 

en angulo de pluva nokto

ĵazo fendis la malkvietan paroladon de homoj

per la ondumado solena de disonancoj

 

sonis inter la gutoj sur arbofolioj

senfinaj improvizitaj argumentoj

maltrankvilaj nedeĉifreblaj akordoj

 

muziko konkurencis kun la afliktoplena parolado de homoj

ĵazo kaj vivo

la malkvieta homa animo

la sereneco de milda pluvo

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

quando?

 

PSV dez 2024

 

A queda da ditadura síria, em pleno século 21, revela de novo o espetáculo horripilante da crueldade. A descrição do que se passava na sociedade daquele país é de causar pesadelo. A revelação se dá no  momento em que se rediscute, no Brasil, o que aconteceu durante o nosso último governo autoritário, há poucas décadas.

Que farão os novos governantes, naquele sofrido país?

A maldade humana parece ser universal.

Quando teremos um mundo mais civilizado?

Talvez quando as pessoas comuns, como você e eu, aprendermos a tratar as pessoas comuns, à nossa volta, sempre com cuidado e respeito, como iguais.

Somos todos pessoas comuns.  

 

 

kiam?

 

La renverso de la siria diktaturo, en la  nuna 21-a jarcento, montras denove la hororan spektaklon de krueleco. La priskriboj pri tio, kio okazadis en la socio de tiu lando kaŭzas premsonĝojn. La montrado okazis en momento, kiam oni rediskutas en Brazilo tion, kio okazis dum nia lasta aŭtoritateca registaro, antaŭ nemultaj jardekoj.

Kion faros la novaj regantoj, en tiu suferplena lando?

La homa fieco ŝajne estas universala.

Kiam ni havos mondon pli civilizitan?

Eble kiam ordinaraj homoj, kiel vi kaj mi, lernos rilati kun ordinaraj homoj, ĉirkaŭ ni, ĉiam kun zorgemo kaj respekto, kiel egaluloj.

Ni ĉiuj estas ordinaraj homoj.

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

fugaz

PSV dez 2024

Num dia de céu azul;

um passeio, de mão dada,

depois, um longo descanso,

a pensar em quase nada...

 

Agora, resta a distância,

que me deixa a mão vazia,

e o coração se consola

com lembrança e fantasia...

 

Um passeio em fim de tarde,

é isso a felicidade;

logo, dela, apenas fica

uma suave saudade...

 

pasema 

Man-en-mane ni promenis

sub somera, hela suno;

poste ni longe ripozis,

kor’ en kor’ , en dolĉa kuno...

 

Nun, inter ni, la distanco.

Ne plu eblas tuŝo mana,

kaj la koro sin konsolas

per rememorado vana.

 

Feliĉo estas pasema,

sub la suno, promeniro:

baldaŭ de ĝi restos nur

nostalgia resopiro...

 

 


domingo, 1 de dezembro de 2024

escolhas

 

PSV dez 2024

 

Os brasileiros estão lendo menos. Muito menos. Desde 2015, 11 milhões de pessoas não leram nem uma parte de um livro. Só nos últimos 5 anos, foram quase 7 milhões de brasileiros. A maioria não leu nem uma parte de um livro nos 3 meses anteriores à pesquisa feita pelo Instituto Pró-livro: 53%. Mesmo na idade escolar, em que se deveria estimular o hábito da leitura, houve queda. Mesmo entre as mulheres, que são mais leitores que os homens, houve queda. A única (honrosa) exceção está na parcela dos septuagenários, em que o número de leitores aumentou um pouquinho.

Enquanto isso, cresceu drasticamente, no mesmo período, o acesso às redes sociais e à internet.

Que se deve concluir?

Entre outras coisas, os números falam das escolhas humanas. Sabe-se que a leitura aumenta a cognição, a capacidade de análise, a memória, o humor, o discernimento e a sociabilidade. Sabe-se também que o excesso de tela faz mal aos olhos, reduz a convivência, aumenta o sedentarismo, produz ansiedade e piora o humor.

Mas as pessoas deixam de lado o livro e adotam as telas. Chama-se: livre arbítrio.

 

ELEKTOJ

 

Malpli da brazilanoj legas librojn. Multe malpli. Ekde la jaro 2015, 11 milionoj da homoj ne legis eĉ parton de libro. Nur dum la lastaj 5 jaroj, ili estis preskaŭ 7 milionoj da brazilanoj. La plimulto legis eĉ ne parton de libro dum la 3 monatoj antaŭ la enketo farita de Instituto Por-Libro: 53%.  Eĉ en lerneja aĝo, kiam oni devus stimuli la kutimon legi, okazis falo. Eĉ inter virinoj, kiuj estas pli legemaj ol viroj, okazis falo. La sola (honora) escepto troviĝas en la tavolo de sepdek-jaruloj, en kiu la kvanto da legantoj kreskis iomete.

Dume, draste pliiĝis, en tiu sama periodo, la aliro al sociaj retoj kaj al interreto.

Kion oni devas konkludi?

Inter aliaj aferoj, la ciferoj parolas pri la homaj elektoj. Oni scias, ke legado pliigas kognokapablon, la kapablon analizi, la memoron, la humoron, la klarvidon kaj la sociemon. Oni scias ankaŭ, ke tro da ekranumado damaĝas la okulojn, malpliigas la kunvivadon, kreskigas la senmoviĝon, kaŭzas anksion kaj malplibonigas la humoron.

Tamen, la homoj flankenmetas la libron kaj alprenas la ekranojn. Ĉi tio nomiĝas: libera elektopovo.

 

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

"Ainda Estou Aqui"

 
 

Fui ver “Ainda estou aqui”, o último filme de Walter Salles. Fez sucesso na Europa, faz sucesso de público e de crítica entre nós – nós, que continuamos a receber apenas o Oscar, ignorando os festivais de Cannes, Veneza, Berlim.

É uma bela obra de arte. Em várias camadas: roteiro equilibrado, direção sensível, iluminação e fotografia impecáveis. E sobre tudo isso, a comovente atuação de Fernanda Torres, a encarnar a Dor e a Resistência numa só grandiosa personagem.

Não é apenas um filme de mensagem política. Trata da nossa humanidade, da nossa mistura de extrema violência, crueldade e selvageria, entremeadas com a necessidade de superar o mal com a força do humanismo.

O enredo é simples: a sobrevivência de uma família de classe média carioca ao assassinato do pai, nos porões infernais da repressão insana, durante a ditadura militar. A viúva, heroicamente, retribui com dignidade, generosidade e renascimento, tornando-se uma ativista de direitos humanos. Não se fala em vingança. Fala-se em perspectiva de novos valores para o nosso mundo.

Um filme sobretudo necessário, na medida em que ainda há brasileiros que preferem o autoritarismo do regime militar em lugar da nossa precária democracia.

 

Mi ĵus spektis la filmon “Mi ankoraŭ staras ĉi tie”, de Walter Salles. Ĝi furoris en Eŭropo, furoras laŭ publiko kaj kritiko inter ni — ni, kiuj daŭre ricevas informojn nur pri “Oscar”, kaj ignoras la festivalojn de Cannes, Venecio, Berlino.

Ĝi estas bela artverko. Laŭ pluraj tavoloj: ekvilibra kinrakonto, sentoplena reĝisorado, prilumado kaj fotografio senriproĉaj. Kaj super ĉio, la emociiga aktorado de Fernanda Torres, kiu rolas la Doloron kaj la Rezistadon en unu sola grandioza homfiguro.

Ĝi ne estas nur filmo kun politika mesaĝo. Temas pri nia homeco, pri nia mikso de ekstrema perforto, kruelo kaj sovaĝo, meze inter la bezono superi la malbonon per la forto de homamo.

La intrigo estas simpla: la postvivado de mezklasa familio en Rio, post la murdo de la patro, en la inferaj subteraj etaĝoj de freneza turmentado, okaze de la militista diktaturo. La vidvino heroe redonas grandanimecon, dignon kaj renaskiĝon, kaj fariĝas aktivisto por homaj rajtoj. Oni ne parolas pri venĝo. Oni parolas pri la perspektivo de novaj valoroj por nia mondo.

Filmo super ĉio necesa, laŭ tio, ke ankoraŭ troviĝas brazilanoj, kiuj preferas aŭtoritarismon de militista reĝimo, anstataŭ nia apenaŭa demokratio.