domingo, 13 de junho de 2021

na pálida tarde de sábado

 

PSV jun 2021


na pálida tarde de sábado

três homens sentados na calçada

 

são homens pobres e bêbedos

a julgar pelos andrajos

pela garrafa de cerveja quente

que a cada um fornece goles cáusticos

 

são felizes

com suas feições sérias

compenetradas

enquanto trocam ideias de duvidosa gravidade

 

não há ninguém na rua

além dos três homens na calçada

e sua garrafa

de quando em quando passa um carro

um cão peregrino

uma lufada de ar

todos ignoram aquela assembleia inusitada

 

de que falam não importa

falam de nada

basta que tenham consigo

a mais antiga das humanidades

- a comunhão

 

 

en pala sabata posttagmezo

tri viroj sidas sur trotuaro

 

ili estas malriĉaj ebriaj viroj

se oni konsideras iliajn ĉifonajn vestojn

la botelon kun varma biero

kiu al ĉiu liveras kaŭstikajn glutojn

 

ili estas feliĉaj

kun siaj seriozaj mienoj

severaspektaj

dum ili interŝanĝas ideojn de dubinda graveco

 

neniu troviĝas sur la strato

krom la tri viroj sur trotuaro

kaj ilia botelo

iam kaj iam preterpasas aŭto

pilgrimanta hundo

aerblovo

ĉiuj ignoras tiun nekutiman kunsidon

 

ne gravas pri kio ili parolas

ili parolas pri nenio

sufiĉas ke ili havas kun si

la plej antikvan homecon

- la komunecon

Todas as estrelas são pequenas à noite

 


Termino a leitura de um livrinho precioso. Com o título acima, trata-se de belíssima antologia de microcontos em Esperanto. A edição é da americana Mondial, com iniciativa de Miguel Fernandes e Miguel Adúriz, atuais responsáveis pelo tradicional Concurso Literário anual da Associação Universal de Esperanto. A categoria “microcontos” foi introduzida no concurso, por iniciativa deles, por representar uma nova expressão literária de grande sucesso em todo o mundo, nos últimos tempos. Os Esperantistas aderiram pronta e entusiasticamente. Como os resultados dos concursos publicam habitualmente somente os textos premiados, os organizadores decidiram editar a antologia, para que o público tenha acesso a outros daqueles textos.

Numa primorosa introdução, pode-se ler uma bela defesa da novidade, bem como um breve ensaio sobre o espírito do microconto.

A leitura é deliciosa. Aqui vão dois exemplos:

 

De Francisco Javier Moleón,

 

“Parece ouro”

 

“Isso é tudo?”, perguntei.

O caixão permaneceu em silêncio.

 

De Liven Dek,

 

“Problema de necessidades”

 

Precisaram de vários anos para decidir se casar. Uma vez feito, bastou uma noite para a separação.

 

 

“Ĉiuj steloj etas nokte”

 

Mi finis la legadon de fajna libreto. Kun tiu titolo, temas pri belega antologio de mikronoveloj en Esperanto. La eldono estis farita de la usona Mondial, laŭ iniciato de Miguel Fernandez kaj Miguel Adúriz, nuntempaj respondeculoj pri la tradiciaj ĉiujaraj Belartaj Konkursoj de Universala Esperanto-Asocio. La branĉo “mikronoveloj” estis enkondukita en la konkurson pro ilia iniciato, ĉar ĝi reprezentas novan literaturan esprimaĵon, kiu furoras en la tuta mondo, lastatempe. Esperantistoj tuj aprobis entuziasme. Ĉar la rezultoj de la konkursoj kutime publikigas nur premiitajn tekstojn, tial la organizantoj decidis eldonigi la antologion, por ke la publiko povu aliri aliajn tiajn tekstojn.

En bone farita enkonduko,oni povas legi belan defendon de tiu novaĵo, kaj ankaŭ nelongan eseon pri la spirito de mikronoveloj.

La legado estas tre plezuriga. Jen du ekzemploj:

 

De Francisco Janvier Moleón,

 

Oron similas

 

“Ĉu tio estas ĉio?” mi demandis.

La ĉerko restis silenta.

 

De Liven Dek,

 

Problemo pri bezonoj

 

Ili bezonis plurajn jarojn por decidi pri sia geedziĝo. Post la plenumo, unu nokto sufiĉis por disiĝo.

terça-feira, 27 de abril de 2021

Carta ao neto

 


Querido menino:

 

Chegas hoje ao décimo ano de vida. Estás pois à porta da adolescência - que cada vez se abre mais cedo às crianças – para dela passares à vida adulta. Neste dia, sinto a compulsão ingênua de te deixar umas poucas palavras. Releva a escassa consistência delas.

Primeiro de tudo, não te esqueças de guardar os teus brinquedos; são o que de mais precioso terás como documentos de vida. Não deixes para trás a infância; mantém-na viva numa reserva da tua alma. Podes precisar dela.

Abre a tal porta com alegria, deixa de lado o medo e a insegurança diante de algo para o qual não te prepararam; mantém esse teu riso maroto de quem sabe abraçar e pedir desculpa, quando se equivoca. Tu já aprendeste: haverá tropeços, mas nenhum que te impeça de um passo maior, exceto o último de todos os tropeços.

Antes de tudo, olha-te com carinho, vê como és belo de corpo e sentimento. Isso te dará ânimo para as artimanhas do mundo.

Ouve-te com atenção, quando a primeira dúvida te assaltar; trata de te pacificar com ela, que será tua constante companheira de viagem.

Não te preocupes em acertar mais do que é permitido às pessoas reais; não há nada mais cansativo, tedioso e desestimulante. Cuida antes de ser feliz, algumas vezes por dia.

Não percas tempo em julgar  a outrem; assim te sobrará mais tempo e tirocínio para avaliar a ti mesmo. Terás pela frente a constante necessidade de reavaliação, da qual a maioria das pessoas foge, por ser sinuosa e trabalhosa.

Não incorpores o triste, não incorpores o alegre; sê quem és, único. Não é preciso ser cópia.

E por último, por favor, eu te faço um pedido de avô. Um dia, quando o céu estiver nublado e correr por tua  pele um vento frio de fim de outono; quando estiveres  profundamente só; quando o teu olhar por um momento se tornar turvo, lembra: é inevitável. Ouve Mozart, e isso se tornará mais brando.

Em dia de sol, ouve Vivaldi.

E, se possível, aprende Esperanto.

 

 

Letero al nepo

 

Kara knabo:

 

Ci alvenis hodiaŭ al la deka vivojaro. Sekve, ci staras antaŭ la pordo al adoleskeco - kiu pli kaj pli frue malfermiĝas al infanoj - kaj tra ĝi ci pasos al la vivo de plenkreskuloj. En ĉi tiu tago, mi eksentas la naivan impulson lasi al ci kelkajn, nemultajn vortojn. Pardonu ilian malmultan konsiston.

Unue, ne forgesu konservi ciajn ludilojn; ili estas plej valoraj dokumentoj pri cia vivo. Ne postlasu la infanan tempon; tenu ĝin vivanta en ia rezervujo de cia animo. Eble ci bezonos ĝin.

Ĝoje malfermu tiun pordon, lasu flanken timon kaj heziton fronte al tio, por kio oni ne preparis cin; konservu tiun cian ruzan ridon de homo, kiu scipovas brakumi kaj pardonpeti, kiam li eraras. Ci jam lernis: okazos stumbloj, sed neniu stumblo tiel forta, ke ci ne povos fari post ĝi eĉ pli grandan paŝon, krom la lasta el ĉiuj stumbloj.

Super ĉio, rigardu cin mem ameme, vidu, kiel bela ci estas, korpe kaj sente. Tio vigligos cin antaŭ la ruzaĵoj de la mondo.

Aŭskultu cin mem atente, kiam la unua dubo vin atakos; klopodu pacigi cin kun ĝi, kiu estos cia konstanta vojaĝkunulo.

Ne klopodu trafi ĝustajn agojn pli ofte ol tio, kio estas permesata al realaj homoj; nenio estas pli laciga, teda kaj malstimula. Provu prefere esti feliĉa, kelkajn fojojn en ĉiu tago.

Ne perdu cian tempon juĝante aliulojn; tiel restos al ci pli da tempo kaj prudento por taksi cin mem. Ci havos antaŭ ci la konstantan bezonon retaksi cin mem, de kio plej multaj homoj forkuras, ĉar tio estas sinua kaj laboriga afero.

Ne rolu kiel malĝojulo, ne rolu kiel ĝojulo; estu ci mem, unika. Ne necesas esti kopiaĵo.

Kaj laste, bonvolu, mi petas kiel avo. Iun tagon, kiam la ĉielo estos nuba kaj trakuros sur cia haŭto malvarma vento en malfrua aŭtuno; kiam ci estos profunde sola; kiam cia rigardo momente nebuliĝos, tiam memoru: tio estas neevitebla. Aŭskultu Mozarton, kaj tio mildigos ĝin.

En suna tago, aŭskultu Vivaldi.

Kaj se eble, lernu Esperanton.

 

 

sábado, 10 de abril de 2021

comunhão

 

 
 Foto A.Vianna - 2021
 
 


eu creio

tu não crês

nossos olhos descerram névoas

 

no entanto nos vemos

com a nitidez dos opostos

ofereço a ti a minha fé

de todo coração

tu me ofereces a tua descrença

com todo sentimento

 

tua descrença me ampara

e torna livre a minha comunhão

minha fé te acolhe

brando aroma difuso

 

o que nos une é o banho dos pássaros na água da fonte

a banalidade do mundo

a efemeridade dos dias

alguma música

algum verso

não nos ocupamos com certezas

basta-nos habitar o reino das palavras

 

 

 

 

komuno

 

 

mi kredas

vi ne kredas

niaj okuloj malfermas nebulojn

 

tamen ni vidas unu la alian

kun klareco de oponoj

mi proponas al vi mian fidon

el mia tuta koro

vi proponas al mi vian malkredon

el via tuta sentimento

 

via malkredo min subtenas

kaj faras libera mian komunon

mia fido akceptas vin

milda aromo disa

 

nin kunigas la baniĝo de birdoj en la fontana akvo

la banaleco de la mondo

la efemereco de la tagoj

iom da muziko

ia verso

ni ne okupiĝas pri certecoj

sufiĉas al ni vivi en la regno de vortoj

 


terça-feira, 30 de março de 2021

Usos e desusos da palavra

 

    “Úrsula”, romance de Maria Firmina dos Reis, é um livro pioneiro. Escrito por mulher negra, nordestina, em pleno século 19, quando o analfabetismo imperava  no Brasil (ainda muito mais que hoje), acabou marcando a história da literatura brasileira, por seu pioneirismo. Fui ler.

    A prosa é pomposa e solene. Pululam mesóclises e tratamentos na segunda pessoa do plural. Os sentimentos, exaltados, de um romantismo exagerado, quase gongórico. As donzelas, castas; os mancebos, idealistas; as mães, santas; os vilões, abjetos.

    Fui percorrendo as páginas, divertido com a ingenuidade da escrita. Até que alcancei o capítulo “A declaração de amor”, em que o jovem Tancredo, após expressar seu amor por Úrsula, explica a ela que passara antes por grande decepção amorosa, que lhe deixara o coração ressequido. Diz ele:

    “Depois de tão longo e apurado sofrimento, depois de ter esgotado até as fezes o meu cálix de amargura, votei ódio àquela que me fora tão cara.”

    Confesso que levei um susto! O uso da palavra “fezes”, no meio de um diálogo entre dois apaixonados, para expressar a ideia de que os sentimentos do personagem eram como “um resto de líquido no fundo de um recipiente”, me embasbacou.

    Por favor, amigos, me digam: Firmina não podia escolher uma palavrinha mais branda?

    Algum leitor de espírito mais poderoso que o meu, dirá: puro preconceito. Palavras são palavras, e têm os seus devidos significados. Se não sabe, vá ao dicionário.

    Pode ser, não discuto.

    Mas fiquei pensando: como será que se chamavam os excrementos no Maranhão do século 19?

 

 

    Uzado kaj eksuzado de vortoj

 

    “Úrsula”, romano de Maria Firmina dos Reis, estas pionira libro. Verkita de negra, brazila nordorienta virino, meze de la 19-a jarcento, kiam analfabeteco regis en Brazilo (eĉ pli ol nuntempe), fine fiksiĝis en la historio de la brazila literaturo, pro sia pionireco. Mi eklegis ĝin.

    Ĝia prozo estas pompa kaj solena. Abundas pronomoj enplektitaj en verboj laŭ eksmoda portugala lingvo; same svarmas uzado de moŝtaj manieroj dialogi. La sentoj, ekzaltitaj, en troa romantikeco, preskaŭ gongorisma. La virgulinoj, ĉastaj; la junuloj, idealismaj; la patrinoj, sanktaj; la fiuloj, naŭzaj.

    Mi trairis la paĝojn, iom amuzita de la naiveco de la skribo. Ĝis mi atingis la ĉapitron “Amdeklaro”, en kiu la juna Tancredo, espriminte sian amon al Úrsula, klarigas al ŝi, ke li antaŭe trapasis grandan amelreviĝon, kaj ĉi tiu sekigis lian koron. Li diras:

    “Post tia longa kaj elĉerpa suferado, elĉerpinte ĝis ”as fezes“ mian kalikon da amareco, mi eksentis malamon al tiu virino, kiun mi tre amis.”

    (En la portugala lingvo, la vorto “fezes” havas du ĉefajn signifojn: 1 fekaĵoj; 2 restaĵo de likva substanco sur la fundo de ujo. Ĉi tiu dua signifo estas tute ne plu uzata, kaj plej multaj portugallingvanoj eĉ ne konas ĝin.)

    Mi konfesas, ke mi forte surpriziĝis. La uzo de la vorto “fezes”, meze de dialogo inter du geamantoj, por esprimi la ideon, ke la sentoj de la rolulo estis kvazaŭ “restaĵo de likva substanco sur la fundo de ujo”, min gapigis.

    Bonvolu, geamikoj, diru al mi: ĉu Firmina ne povus elekti pli mildan vorteton? Iu leganto kun spirito pli forta ol la mia, diros: simpla antaŭjuĝo. Vortoj estas vortoj, kaj ili havas siajn koncernajn signifojn. Se vi ne scias, iru al la vortaro.

    Povas esti, mi ne diskutas.

    Se mi pensadas: kiel oni nomis ekskrementojn en la brazila ŝtato Maranhão, en la 19-a jarcento?

segunda-feira, 22 de março de 2021

Do outro lado do mundo

 




Se o mundo tivesse lado, eu teria falado com gente do outro lado do mundo. Para ser mais apropriado, com nossos antípodas. Foi pelo Zoom, este campeão de popularidade que congrega gente de todo lugar: decididamente, o mundo ficou muito pequeno.

Aconteceu em 18 de março de 2021, em meio à terrível pandemia do coronavirus. Madrugada no Brasil, 4 da tarde en Sidnei, na Austrália. Estavam presentes mais de sessenta Esperantistas de vários países da Ásia e Oceania, mais alguns da Europa. A convite, falei a eles, com toda a simplicidade, sobre a nossa maltratada Mata Atlântica e os esforços de Lelia Salgado e Sebastião Salgado para salvar o paraíso da completa devastação. Ao final, ouvi manifestações de interesse, solidariedade, emoção, comunhão.

Somos todos feitos da mesma substância, irmanados pelos mesmos interesses globais. E falando o mesmo idioma, Esperanto, que nos iguala em cidadania. 

Esperanto é civilização.

 

 

ĈE LA ALIA FLANKO DE LA MONDO

 

Se la mondo havus flankon, mi estus parolinta al homoj el la alia flanko de la mondo. Pli ĝuste, kun niaj antipoduloj. Tio okazis per Zoom, ĉi tiu ĉampiono de populareco, kiu kunvenigas homojn el ĉiuj lokoj: sendube, la mondo fariĝis tre malgranda. 

Tio okazis je la 18-a de marto 2021, meze de la terura kronvirusa pandemio. Estis nokte en Brazilo, kaj la 4-a posttagmeze, en Sidnejo, Aŭstralio.  Ĉeestis pli ol sesdek Esperantistoj el pluraj landoj en Azio kaj Oceanio, krom kelkaj el Eŭropo. Invitite, mi parolis al ili, tute simple, pri nia mistraktata Atlantika Arbaro kaj pri la strebado de Lelia Salgado kaj Sebastião Salgado por savi la paradizon de kompleta detruo. Fine, mi aŭdis esprimojn de interesiĝo, solidareco, emocio, kunsentemo.

Ni ĉiuj konsistas el unu sama substanco, ni estas fratoj ĉe la samaj tutmondaj interesoj. Kaj ni parolas unu saman lingvon, Esperanton, kiu nin egaligas laŭ civitaneco.

Esperanto estas civilizo.

sexta-feira, 12 de março de 2021

A se deletar

 

 

O leitor toma do livro, cheio de entusiasmo. A capa é bonita, o papel de boa qualidade, a impressão, cuidadosa. Vejamos o miolo.

Desenrola-se um texto surpreendente, a mostrar a vida de uma comunidade paupérrima, no chamado “Brasil profundo”. O tema é valioso, as situações mostradas de maneira sóbria e original. E sobretudo a trama se desenrola com habilidade e riqueza de detalhes, sem chavões, discursos ou doutrinação. As personagens têm vida, os cenários convencem, pelo realismo.

Pelo visto, um bom livro. Para ser ótimo,  falta alguma coisa. Falta música.

Uma narrativa precisa de duas pernas: um bom tema e uma boa maneira de narrar. A forma é essencial, tanto quanto o entrecho. Uma boa história, contada de maneira burocrática e descolorida, acaba cansando. Não se trata de erros de ortografia ou sintaxe. Trata-se de musicalidade no estilo, o que é difícil de definir mas fácil de perceber. Um conto que traga acontecimentos banais jamais será salvo por fraseado elegante; mas o melhor dos temas será abafado por um estilo desgracioso.

O leitor não é especialista em crítica literária e teme expressar sua opinião sobre “Torto arado”, de Itamar Vieira Junior, prêmio Jabuti em 2020, amplamente elogiado pelos meios de comunicação. Gostou do livro, leu com prazer até a última página, e recomenda. Com esta ressalva: falta musicalidade. 

Caso descabida, delete-se esta página.

 

 

Oni forviŝu

 

    Leganto prenas libron, plena de entuziasmo. La kovrilo estas bela, la papero bonkvalita, la preso bone zorgita. Ni vidu la enhavon.

    Elvolviĝas surpriza teksto, montranta la vivon de tre malriĉa komunumo, en la tiel nomata “profunda Brazilo”. La temo estas valora, la situacioj montriĝas sobre kaj originale. Kaj precipe elvolviĝas la intrigo lerte kaj riĉa je detaloj, sen kliŝoj, paroladoj aŭ doktrinecaj argumentoj. La roluloj estas vivantaj, la scenejoj estas konvinkaj, pro realeco.

    Ŝajne bona livro. Por esti bonega, mankas io. Mankas muziko.

    Rakonto bezonas du krurojn: bonan temon kaj bonan manieron rakonti. La formo estas esence grava, same kiel la intrigo. Bona historio, rakontita en maniero burokratia kaj senkolora, fine lacigas.   Ne temas pri ortografiaj aŭ sintaksaj misaĵoj.  Temas pri  muzikeco en la stilo, kio estas malfacile difinebla sed facile sentebla.  Rakonto enhavanta banalajn aferojn neniam estos savita per eleganta frazkonstruado; sed plej bonan temon sufokos senĉarma stilo.

    La leganto ne estas fakulo pri literatura kritiko, kaj li timas esprimi sian opinion pri “Torto arado”, de Itamar Vieira Junior, ricevinta la premion “Jabuti” en 2020, vaste laŭdata en la amaskomunikiloj. Li ŝatis la libron, ĝin legis kun plezuro ĝis la lasta paĝo, kaj ĝin rekomendas. Kun ĉi tiu averto: mankas muziko.

    Se ĉi tiu paĝo estas neoportuna, oni ĝin forviŝu.

 

terça-feira, 2 de março de 2021

Perda

 

 PSV mar 2021

 

 

Perdeu-se a velha folha de papel

na desordem da mesa.

Havia nela uns versos tolos

ingênuos

sentimentais

canhestros

pálidos

desbotados

manchados pela sujidade do tempo

quase indecifráveis

humilhados.

Sinto falta deles.

Eram versos de amor

que se perderam na desordem da vida.

 

 

Perdo

 

Perdiĝis la malnova paperfolio

en la malordo sur tablo.

Estis sur ĝi iaj stultaj versoj

naivaj

sentimentalaj

misaj

palaj

senkoloraj

makulitaj de la malpureco de tempo

preskaŭ nedeĉifreblaj

humiligitaj.

Mi bedaŭras la perdon.

Ili estis amversoj

kiuj perdiĝis en la malordo de vivo.