domingo, 8 de fevereiro de 2015

QUANTO VALE UMA OBRA DE ARTE?



Um quadro de Gauguin acaba de bater o recorde no mercado das obras de arte. Em lugar ignorado, comprador ignorado adquiriu de um proprietário suíço, por 300 milhões de dólares, o quadro ´Quando você vai se casar?´. Estranho mercado.
Que critério usar quando se avalia o preço de uma obra de arte? Difere por certo daquele que se usa com qualquer outra mercadoria ou serviço: a infalível ´lei da oferta e da procura´. Obras de arte não têm utilidade, a menos que se chame útil o deleite do olhar. Por isso vão a leilão, que é um habilidoso expediente do capitalismo, a acirrar enfrentamento e competição. Talvez não falte, nesse jogo meio delirante, uma certa dose de exibicionismo. Enquanto isso, fome, Ebola, AIDS e terrorismo grassam na África e outros lugares.
Eugene-Henri-Paul Gauguin nasceu em 1848, em Paris, e viveu parte da infância no Peru. Depois viajou pelo mundo e acabou se estabelecendo na Europa. Não se engajou no movimento impressionista, que então dominava. Assumiu um primitivismo chamado pós-impressionista, com grandes manchas achatadas, certa ingenuidade e pouca profundidade de perspectiva em suas composições. Morreu pobre.
´Quando você vai se casar?´ é um quadro muito bonito. 300 milhões de dólares é uma cifra muito feia.


KIOM VALORAS ARTAĴO?

Pentraĵo de Gauguin antaŭ nelonge atingis rekordon en la merkato de artaĵoj. En nekonata loko, nekonata aĉetanto havigis al si, de svisa posedinto, kontraŭ 300 milionoj da dolaroj, la pentraĵon ´Kiam vi edziniĝos?´. Stranga merkato.
Kian kriterion uzi, kiam oni taksas la prezon de artaĵo? Ĝi certe malsamas ol tiu, kiun oni uzas por akiri ian ajn alian varon aŭ servon: la neevitebla ´leĝo de oferto kaj bezono´. Artaĵoj ne havas utilecon, krom se oni nomas utila la ĝuon rigardi. Pro tio oni portas ilin al aŭkcioj, kiuj estas ruzaj rimedoj de kapitalismo  por akrigi konfrontadon kaj konkuradon. Eble ne mankas, en tia iom delira ludo, dozo da vanta parademo. Dume, malsato,  Ebola,  aidoso kaj terorismo abundas en Afriko kaj aliloke.
Eŭgeno Henriko Paŭlo Gauguin naskiĝis en la jaro 1848, en Parizo, kaj vivis parton de sia infana tempo en Peruo. Poste li vojaĝis tra la mondo kaj fine establiĝis en Eŭropo. Li ne engaĝis sin en la impresionisman movadon, kiu tiam regadis. Li alprenis tiel nomatan primitivismon post-impresionisman, metante grandajn platajn makulojn, iom da naiveco kaj malmulte da perspektivoprofundeco en siajn verkaĵojn.  Li mortis malriĉa.

´Kiam vi edziniĝos?´ estas tre bela pentraĵo. 300 milionoj da dolaroj estas tre malbela cifero.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

A QUEDA



Sabe o que é  ´socorrista`? É aquele sujeito de calças largas e sapatos grossos que dirige a ambulância e acumula a função de pôr e tirar a maca com o paciente em cima, da rua para o hospital, do hospital para casa, ou para outro hospital.
Sávio é o nome do ´socorrista´ em questão. Grandalhão, silencioso, eficiente, habilidoso no trânsito e nas manobras da maca.
Outro dia, foi levar uma senhora para fazer um exame de tomografia. A mulher fora internada por uma misteriosa afasia, cuja causa ninguém descobria.
Na ida, tudo bem. Na volta, quando Sávio retirava a maca da ambulância, o mecanismo falhou.  A paciente despencou de um metro de altura, em cima da própria maca. Gritos, mãos na cabeça, acudiram todos.  Não houve nada, não se machucou, foi só susto. Sávio, cheio de dignidade, pediu desculpas e prosseguiu no procedimento, com a segurança habitual. Mas o enfermeiro comentou: ´Esse perdeu o emprego.´
De fato, Sávio foi despedido. Nem ficou sabendo que a paciente, a partir daquele susto, voltou a falar normalmente. Estava curada da afasia.

LA FALO

Ĉu vi scias, kio estas ´helpisto´? Tio estas  ulo en larĝaj pantalonoj kaj dikaj ŝuoj, kiu stiras ambulancon kaj krome plenumas la taskon enmeti kaj elmeti la brankardon kun la kuŝanta paciento, el strato al hospitalo, el hospitalo al lia hejmo, aŭ al alia hospitalo.
Sávio estas la nomo de la koncerna ´helpisto´. Korpulenta, silentema, efikmova, lerta en la trafiko kaj en la manovroj per la brankardo.
Antaŭ kelkaj tagoj, li transportis sinjorinon por tomografio. La virino enhospitaliĝis pro mistera afazio, kies kaŭzon neniu sukcesis trovi.
Dum la irado, ĉio en ordo. Revene, kiam Sávio eltiris la brankardon el la ambulanco, la meĥanismo subite ne funkciis. La paciento falis de alteco de unu metro, kuŝante sur la brankardo. Krioj, manoj sur la kapoj, alkuris ĉiuj.  Nenio malbona okazis, ŝi ne vundiĝis, apenaŭ ektimis. Sávio digne pardonpetis kaj plu plenumis la transporton kun la kutima memfido. Sed la flegisto flanken murmuris: ´Tiu nepre maldungiĝos.´

Efektive, oni maldungis la kompetentan Sávio. Li eĉ ne sciis poste, ke la pacientino, post tiu ektimo, denove komencis paroli normale. Ŝi resaniĝis de la afazio.

domingo, 11 de janeiro de 2015

O AMIGO



Em manhãs rosadas,
saímos, meu amigo e eu, a caminhar,
entre folhas caídas e pensamentos.
É boa companhia, o amigo,
de passada leve e compatível com a minha,
de pequenas e modestas falas,
silêncios oportunos, 
olhar atento aos telhados ,
aos cães vadios,
aos muros cobertos de hera,
aos terrenos baldios,
aos varredores de rua.
Às vezes comenta alguma descoberta de cientistas alemães.
Outras repete um velho anexim,
um verso de Pessoa,
um suspiro.
Nunca falamos de política, 
de metafísica,
ou de arte abstrata,
mas noto que ele se comove com os pedregulhos do chão
e com crianças descalças.
Meu amigo balança os braços como balança a vida,
caminha para nunca  chegar,
e não sei se vai comigo ou consigo.
Além de mim, ninguém o vê.
Meu amigo é uma fagulha.

LA AMIKO

En rozkoloraj matenoj
ni eliras, mia amiko kaj mi, por piediradi
inter falintaj folioj kaj pensoj.
Li estas bona kunulo, la amiko,
kun malpeza paŝado, kongrua kun la mia,
kun etaj kaj modestaj paroloj,
oportunaj silentoj,
atenta rigardo al tegmentoj,
al vagantaj hundoj,
al muroj kovritaj per hedero,
al malplenaj terenoj,
al stratbalaistoj.
Foje li komentas iun malkovron de germanaj sciencistoj.
Foje li ripetas antikvan proverbon,
verson de Pessoa,
suspiron.
Ni neniam parolas pri politiko,
pri metafiziko
aŭ pri abstrakta arto,
sed mi rimarkas, ke li emociiĝas pro surgrundaj ŝtonoj
kaj pro senŝuaj infanoj.
Mia amiko balancas siajn brakojn kiel li balancas sian vivon,
li iras por neniam reveni,
kaj mi ne scias, ĉu li iras kun mi aŭ kun si.
Escepte de mi, neniu alia vidas lin.

Mia amiko estas ia fajrero.

RESENHA FALADA: LIVRO "NOVA SENTO"

Filme de 6 minutos com uma pequena resenha do livro "Nova Sento", em Esperanto.

https://www.youtube.com/watch?v=sG8Lg2H_ZcI&feature=youtu.be



PAROLATA RECENZO: VERKO "NOVA SENTO"

6-minuta filmeto kun eta recenzo pri la verko "Nova Sento"

https://www.youtube.com/watch?v=sG8Lg2H_ZcI&feature=youtu.be

domingo, 4 de janeiro de 2015

ESCRITOS DA UTOPIA


Tenho livros esquecidos nas prateleiras, esperando na fila interminável para serem lidos. Por estes dias encontrei um desses desprezados, velhinho, amarelado, que já nem sei onde adquiri. Olhando a data da primeira edição, fiquei animado: 1915. Cem anos! Chegou a hora dele.
Arrependi-me de ter demorado tanto. É um original em Esperanto de título “Nova Sento” – “Um Novo Sentimento” que se percorre com muito gosto. O autor, o inglês H.B. Hyams, assinou com o curioso pseudônimo “Tagulo”, que em tradução literal significa “Indivíduo do dia”.  Trata-se de uma ingênua contribuição à literatura de utopia. Contém o relato de um terráqueo que, após uma quase trombada do nosso planeta com um outro corpo celeste desgovernado, acorda em Marte, em meio a uma sociedade de seres mentalmente mais elevados, de vida harmônica, vegan, espiritualizada, de crença reencarnacionista (supostamente por influência das ideias teosóficas do autor) e socialista. É claro que o autor não se põe na escala da realidade, mas da assumida utopia, e é daí que gostei do livro: faz pensar nessa curioso ramo da literatura que há milênios fascina a humanidade, às voltas com a pergunta que muitos de nós nos fazemos, em algum momento: como seria um mundo melhor? se dependesse de mim, como funcionaria a sociedade?
Que ninguém se atreva a muxoxear diante da pergunta, sob pena de ofender a memória de Platão que, quatro séculos antes de Cristo, se ocupou em transcrever diálogos de Sócrates em “A República”.  Antiga descrição de uma sociedade sob os ideais da justiça, ainda que com escravos e desprezo à mulher.
Pelo correr dos séculos, muita gente boa se ocupou da questão. Não cabe aqui qualquer pretensão de completude, mas apenas de citar alguns que marcaram época. Curiosamente, fica o destaque para os ingleses, que se tornaram quase especialistas no assunto. No século 16, Tomas Morus, nascido em Londres, cunhou o termo “Utopia” (“lugar que não existe”) para denominar a ilha em que funcionaria sua sociedade ideal. Por se recusar a participar de um julgamento espúrio, foi decapitado, por ordem do rei. Mas não faz mal, depois foi canonizado.
Ingleses foram também Aldous Huxley (“Admirável Mundo Novo”, de 1932; “A Ilha”, de 1962), Wells (“Utopia Moderna”, de 1905) e George Orwell (“1984”, de 1949). Este último fica classificado como “distopia”, uma espécie de utopia às avessas, em que se denuncia o perigo que correm as sociedades  sob regimes totalitários, de permanecer sob os olhos de “Big Brothers” que esquadrinham cada milímetro da vida privada de todos os cidadãos. Um horror só superado por nosso “Big Brother” moderno, televisivo, milionário.
A literatura original em Esperanto tem em seus quadros outra brilhante contribuição à literatura de utopia. Trata-se da obra prima “Vojaĝo al Kazohinio” (“Viagem a Kazohinio”), do húngaro Sándor Sathmari, que a escreveu, ao que tudo indica, simultaneamente em húngaro e em Esperanto. Inspirado nas “Viagens de Gulliver” (também literatura inglesa, de autoria do irlandês Jonathan Swift), descreve ironicamente duas sociedades: uma tecnologicamente adiantada mas desumanizada, outra demasiado humana mas passional, belicosa, incoerente.
Reluto muito em terminar estas modestas considerações com uma alusão à conhecida obra “Nosso Lar”, do Espírito André Luiz, sob psicografia de Chico Xavier. Seria nossa brasileiríssima contribuição à literatura de utopia? Para os espíritas, trata-se de relato da mais pura realidade a nos aguardar após a morte – portanto muito longe da utopia. Os descrentes não se furtam ao muxoxo. Resta o consolo do tempo que a todos nos mostrará quem tem razão.
Enquanto isso, os homens continuam a imaginar a sociedade ideal. Tarefa que nunca termina. Mas de vez em quando não custa perguntar, em paralelo, como seria possível viver melhor, cada um de nós, com o que temos por hoje.


VERKOJ PRI UTOPIO

Mi havas forgesitajn librojn surbrete, kiuj atendas en senfina vico, ke mi legu ilin. Antaŭ kelkaj tagoj mi trovis unu el tiuj forgesitoj, malnovan, flavetan, pri kiu mi jam ne memoras, kie mi aĉetis ĝin. Mi rigardis la daton de la unua eldono, mi entuziasmiĝis: 1915. Cent jaroj! Jen nun estas ĝia vico.
Mi pentis, ke mi tiom prokrastis. Ĝi estas originalaĵo en Esperanto, sub la titolo “Nova Sento”, kiun oni tralegas kun granda plezuro. La aŭtoro, la anglo H.B. Hyams, subskribis ĝin per la kurioza kromnomo “Tagulo”, kiun oni povas kompreni kiel “ulo de la tago”. Temas pri naiva kontribuo al utopio-literaturo. Ĝi enhavas la raporton de terano, kiu post preskaŭa karambolo de nia planedo kontraŭ alia misvojiĝinta ĉiela planedo, vekiĝas sur Marso, meze de socio konsistanta el estuloj mense superaj, vivantaj harmonie, vegane, spiritece, kredantaj pri reenkarniĝo (supozeble pro influo de teozofiaj ideoj de la aŭtoro) kaj socialisme. Kompreneble, la aŭtoro ne sin tenas je skalo de realeco, sed de plenkonscia utopio, kaj jen pro tio al mi plaĉis la verko: ĝi pensigas pri tiu kurioza branĉo de  literaturo, kiu de jarmiloj ravas la homaron, kiu ĉiam konsideras demandon de ni ĉiuj faratan, iam kaj iam: kia estus ia mondo pli bona? se tio dependus de mi, kiel funkcius la socio?
Neniu aŭdacu fajfi fronte al tiu demando, se li ne emas ofendi la memoron de Platono, kiu, kvar jarcentojn antaŭ la Kristo, okupis sin pri transskribado de dialogoj de Sokrato, en “La Respubliko”. Temas pri antikva priskribo pri ia socio sub la idealoj de justeco, eĉ se kun sklavoj kaj kun spitado al virinoj.
Laŭ la pasado de la jarcentoj, multaj indaj homoj okupis sin pri tiu afero. Ne temas ĉi tie pri ia pretendo pri kompleteco, sed nur pri menciado de kelkaj el tiuj, kiuj estas epokfaraj. Kurioze, elstaras angloj, kiuj fariĝis preskaŭ fakuloj pri tiu temo. En la 16-a jarcento, Tomas Morus, naskita en Londono, ekuzis la vorton “Utopio” (“neekzistanta loko”) por nomi la insulon, kie funkciis lia ideala socio. Rifuzinte partopreni maljustan juĝon, oni senkapigis lin pro ordono de la reĝo. Sed ne gravas, oni kanonigis lin.
Anglaj estis ankaŭ Aldous Huxley (“Brava Nova Mondo”, 1932; “La Insulo”, 1962), Wells (“Moderna Utopio”, 1905) kaj George Orwell (“1984”, 1949). Ĉi tiun lastan oni klasas kiel “distopion”, nome iaspeca inversita utopio, per kiu li montras la riskon de socioj sub totalismaj reĝimoj, ke oni restu sub la rigardado de “Big Brother” (“Granda Frato”), kiu kontrolas ĉiun milimetron el la privata vivo de ĉiuj civitanoj. Teruraĵo, kiun superas nur nia televida “Big Brother”, moderna, milionula.
La originala literaturo en Esperanto enhavas alian brilan kontribuon al utopio-literaturo. Temas pri la ĉefverko “Vojaĝo al Kazohinio”, de la hungaro Sándor Sathmari, kiu verkis ĝin laŭŝajne en la hungara lingvo kaj en Esperanto, samtempe.. Li inspiriĝis je la “Vojaĝoj de Gulivero” (denove angla literaturo, de la irlandano Jonathan Swift), kiu ironie priskribas du sociojn: unu teknike evoluinta sed nehomeca, alia tro homeca sed pasiema, militema, senkohera.
Mi multe hezitas fini ĉi tiujn modestajn konsiderojn per aludo al la konata verko “Nia Hejmo”, kies aŭtoro estas Spirito Andreo Ludoviko, mediume skribita de Chico Xavier. Ĉu ĝi estus nia tute brazila kontribuo al utopio-literaturo? Laŭ spiritistoj, temas pri raporto plej reala pri tio, kio nin atendas post la morto – do tute for de utopio. Nekredantoj ne evitas malŝatan spitadon. Restas la konsolo de la tempo, kiu al ni ĉiuj montros, kiu pravas.

Dume, la homoj plu imagas idealan socion. Tasko senfina. Sed de tempo al tempo indas demandi, paralele, kiel estus eble, ke ĉiu el ni vivu pli bone, per tio kion ni havas nun.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

AMBIGUIDADE


No último dia do ano, saio da padaria e deparo com um pedinte. Tem as pernas estropiadas e, em pé, se apoia precariamente sobre suas muletas oscilantes. Pode-se dizer que estabeleceu duas boas estratégias que ninguém ousaria chamar de espertas, mas de sobrevivência: traja bermudas que não deixam dúvida sobre sua invalidez e posta-se a dois metros do caixa, de onde saem os fregueses, quase sempre com moedas na mão.
                Tenho uma relação ambígua com a esmola. Nasci e cresci em família cristã, ouvindo com certa frequência que se deve ajudar os pobres e dar o casaco a quem não tem. Do ponto de vista puramente religioso, é bonito e fica bem acobertado debaixo da constrangedora palavra “caridade”. Do ponto de vista social, trata-se de uma escandalosa conivência com a ineficiência do estado e da cidadania. Nunca consegui fazê-lo com tranquilidade. Ao contrário, sempre foi com grande desconforto. Como em todas as portas, batem-me à minha, de tempo em tempo, esses necessitados. É sempre um mal-estar: se dou uma moeda, dou mortificado; se não dou, não dou mortificado.
Tentei ser daqueles que argumentam que dar esmolas perpetua o problema; não adiantou. Tentei me filiar aos que acusam o pedinte de acomodação; não funcionou. Experimentei  negar,  pensando que a moeda seria usada para a pinga ou para o crack; menos ainda. Tentei dar uma quantia um pouco maior; foi um desastre. Tentei olhar pela fresta da janela e não atender, quando fosse um pedinte; um horror! Comecei a ajudar alguma instituição beneficente, mas os pedintes lá voltavam à minha porta.
                O desconforto diante do pedinte continua, sem solução, até hoje. De repente, ao sair da padaria, descubro a verdadeira natureza do problema:  eu não conseguia identificar claramente o meu sentimento, diante daquela pessoa.
                Agora eu sei: é vergonha. Mas o problema continua.

AMBIGUECO

Je la lasta tago de la jaro, mi eliras el panvendejo kaj ekvidas almozulon. Li havas kriplajn krurojn kaj malfirme staras sur du balanciĝantaj lambastonoj. Oni povas diri, ke li starigis du taŭgajn strategiojn, kiujn neniu aŭdacus nomi ruzaj, sed por postvivado: li vestis sin per mallongaj pantalonoj, kiuj ne lasas dubon pri lia invalideco, kaj li lokis sin je distanco de du metroj de la vendeja kaso, el kie klientoj eliras preskaŭ ĉiam kun moneroj enmane.
Mi havas ambiguan rilaton kun almozdonado. Mi naskiĝis kaj kreskis en kristana familio, ofte aŭdante, ke oni devas helpi malriĉulojn kaj doni ĉemizon al tiu, kiu ne havas ĝin. El pure religia vidpunkto, tio estas bela kaj bone akomodiĝas sub la duba vorto “karitato”. El socia vidpunkto, temas pri skandala konsentado pri la malkompetenteco de la ŝtato kaj de civitaneco. Mi neniam sukcesis fari tion trankvile. Male, ĉiam estis tre ĝene. Kiel ĉies pordojn, batas ankaŭ mian pordon, de tempo al tempo, tiaj necesbezonantoj. Okazas ĉiam malkomforto: se mi donas moneron, mi ĝin donas kun ĉagreno; se mi ne donas ĝin, mi ĝin ne donas kun ĉagreno.
Mi klopodis aniĝi al tiuj, kiuj argumentas, ke doni almozojn eternigas la problemon; tio ne efikis. Mi klopodis filiiĝi al tiuj, kiuj akuzas la almozulon pri akomodiĝo; tio ne funkciis. Mi provis nei, pensante, ke tiu monero uziĝos por aĉeto de brando aŭ de drogaĉo; eĉ malpli. Mi provis doni iom pli grandan monsumon; katastrofe. Mi provis rigardi antaŭe tra trueto en la fenestro kaj ne respondi, kiam tiu estas almozulo; teruraĵo! Mi komencis helpi bonfaran institucion, sed jen la almozuloj same revenadis al mia pordo.
                La malkomforto fronte al almozulo daŭras  sen solvo ĝis nun. Subite, elirante el la panvendejo, mi ekkonscias pri la vera naturo de la problemo: mi ne sukcesis ĝis nun klare percepti mian senton, antaŭ tiu homo.

                Nun mi scias: tio estas honto. Sed la problemo daŭras.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

EDUCAÇÃO E FRUTOS DO MAR



O restaurante é pequeno, simples, despojado e de bons sabores. O dono acumula as funções de maître, estudioso que é das sutilezas da gastronomia.
Penso um pouco e acabo escolhendo o óbvio: fettuccine com frutos do mar. Ele aprova, condescendente. Principia então o melhor e mais delicado momento de um jantar fora de casa: a espera do prato. Se vem muito rápido, banaliza; se demora além do razoável, traz impaciência ao estômago; se chega no tempo certo, não há melhor aperitivo. Enquanto isso a conversa flutua, sem peso.
Chega a seu tempo. O garçon o serve e deixa ao lado um pequeno recipiente com queijo ralado. Chega de conversa; ocupem-se as  bocas com melhor proveito. Vem o dono-maître e pergunta se está tudo de acordo. Não devia ter perguntado.
Faço-me de desentendido e indago:
-                      Dizem que queijo ralado e frutos do mar não se coadunam. É verdade?
O homem faz uma expressão de contentamento por ter sido consultado e assegura:
-                     É verdade! Em dez anos de funcionamento, o senhor é o primeiro cliente que  levanta a questão. Na Itália, colocar o quejo na mesa já seria heresia. Os sabores brigam.
-                      Pois veja. Tenho um irmão que não tem papas na língua. Ele diria que é falta de educação.
O homem me olha, meio assustado.
-                     Não se assuste, é modo de falar. A palavra “educação” tem pelo menos três acepções. Pode significar “bons modos”, “boas maneiras”: palitar os dentes à mesa é falta de educação. Pode significar “instrução”, “conhecimento”: Fulano tem educação universitária. E pode significar “apuro dos sentidos”, “treinamento do gosto”: ouvir Wagner exige educação do ouvido. Meu irmão diz que certos sabores exigem que se treine o paladar. Como tudo na vida. Não vai nisso qualquer ofensa.
O maître concorda em silêncio e se retira, um tanto desconcertado.
As outras pessoas (há outros à mesa) tinham parado de comer. Após um curto silêncio, alguém murmura:
-                     Certas preleções não cabem à mesa. Pura falta de educação.
E tornamos todos ao excelente repasto.



EDUKADO KAJ MARFRUKTOJ

La restoracio estas malgranda, simpla, senornama kaj kun bonaj gustoj. La posedanto plenumas la taskon ankaŭ de ĉefservanto, ĉar li estas studema pri subtilaĵoj de gastronomio.
Mi iom pensas kaj fine mi elektas ordinaraĵon: pastaĵon kun marfruktoj. Li aprobas, bonvoleme. Komenciĝas tiam la plej bona kaj delikata momento de eksterhejma vespermanĝo: la atendado de la manĝaĵo. Se ĝi alvenas tro rapide, temas pri banaligo; se ĝi prokrastiĝas pli ol konsilinde, senpacienciĝas la stomako; se ĝi alvenas ĝustatempe, ne eblas pli taŭga apetitvekilo. Dume, konsersacio ŝvebas senpeze.
Ĝi alvenas ĝustatempe. La kelnero servas kaj lasas flanke etan ujon da raspita fromaĝo. Ĉesu la konversacio; okupiĝu la buŝoj per io pli profitodona. Alvenas la ĉefservanto kaj demandas, ĉu estas ĉio en ordo. Li devus ne demandi.
Mi ŝajnigas nescion kaj demandas:
-                     Oni diras, ke raspita fromaĝo kaj marfruktoj ne kongruas inter si. Ĉu tio estas vera?
La viro mienas kontente pro la konsulto kaj asertas:
-                     Vere! Post dek jaroj da funkciado, vi estas la unua kliento, kiu starigas ĉi tiun demandon. En Italujo, kunmeti fromaĝon surtablen estus jam herezo. La gustoj malpacas inter si.
-                     Nu, vidu. Mi havas fraton, kiu posedas akran langon. Li dirus, ke tio estas manko de edukiteco.
La viro rigardas min iom timigita.
-                     Trankviliĝu, tio estas nur esprimmaniero. La vorto “edukado” havas almenaŭ tri signifojn. Ĝi povas signifi “taŭgan konduton”, ”taŭgan sintenon”: ĉetable purigi la denton per ligna pingleto estas manko de edukiteco. Ĝi povas signifi “kleriĝon”, “konon”: Petro havas universitatan edukitecon. Kaj ĝi povas signifi “trejniĝon de  la sentumoj”, “trejnado de gustoj”: aŭskulti la muzikon de Wagner postulas edukiĝon de la oreloj.  Mia frato diras, ke ĝuado de  iuj manĝaĵoj postulas, ke oni trejnu sin pri la gusto. Kiel ĉio en la vivo. Ne estas en tio ia ofendo.
La estro silente konsentas kaj foriras iom konsternita.
La aliaj homoj ĉe la tablo (estas aliaj ĉetable) senmanĝe atentas. Post mallonga silento, iu murmuras:
-                     Iaj prelegoj ne konvenas ĉe la tablo. Pura manko de edukiteco.

Kaj ni ĉiuj revenis al la frandinda manĝaĵo.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

UM CLÁSSICO - "LUTO E MELANCOLIA"


Sem qualquer veleidade de conhecimento em psicanálise, pelo motivo mesmo de me faltar tal horizonte, tomo, cheio de respeito, o bonito volume editado pela Cosacnaify de “Luto e Melancolia”, de Sigmund Freud. Tradução preciosa de Marilene Carone, vem acrescido de vários textos de especialistas, a enriquecer e dar corpo ao livrinho. E vem, sobretudo, com uma riqueza exclusiva: sublinhado a lápis por meu irmão, em vários trechos que julgou dignos de destaque. Presente inestimável!
                Devíamos todos os humanos ler este livrinho, que na verdade não passa de um longo artigo. Longo, elegante, requintado na forma e no conteúdo, uma lição de como se pode domar o pensamento e a palavra e colocá-los a serviço da perspicácia, da sabedoria, da criatividade, da arte. Vai muito além da distinção instrutiva (e útil!) entre luto e melancolia – que são bem opostos, muito mais do que as aparências indicam. Faz por exemplo este comentário, retirado de outro texto, a respeito daquilo que todos procuramos, às vezes obsessivamente:

... podemos dizer que a intenção de que o homem seja feliz não se acha no plano da ‘Criação’. “

                Fica o ensinamento: o luto não é doença, resolve-se por si, pois permanece na camada do ego consciente; a melancolia/depressão se volta para o inconsciente e esconde uma raiva, narcisismo disfarçado.  Na queixa  do melancólico se oculta uma acusação.
Não é só para se concordar, é para se pensar. Como esta consideração do implacável conhecedor da alma humana, a propósito do melancólico que vive a se depreciar:

“Quando, em sua exacerbada autocrítica, ele se descreve como um homem mesquinho, egoísta, desonesto e dependente, que sempre só cuidou de ocultar as fraquezas de seu ser, talvez a nosso ver ele tenha se aproximado bastante do autoconhecimento e nos perguntamos por que é preciso adoecer para chegar a uma verdade como essa.”

                Luto e Melancolia” é desses textos a que se deve voltar. É muito provável que cada deslumbrado leitor encontre outros ângulos e modos de o ler. E que eu mesmo, quando o reler, venha a escolher outros ainda. É por isso que se trata de um clássico. Obrigado, irmão.

KLASIKAĴO – “FUNEBRO KAJ MELANKOLIO”

                Sen ia prretendo pri scio pri psikanalizo, pro la motivo mem, ke mankas al mi tia horizonto, jen mi prenas respektoplene la belan volumon eldonitan de Cosacnaify de “Funebro kaj Melankolio” , de Sigmund Freud. Rafinita traduko al la portugala lingvo de Marilene Carone, ĝi enhavas krome plurajn tekstojn de fakuloj, kiuj pliriĉigas kaj enkorpigas la libreton. Kaj precipe ĝi enhavas ian ekskluzivan riĉaĵon: pluraj linioj substrekitaj de mia frato, kie li trovis ilin elstarigindaj. Nekalkuleble valora donaco!
                Ĉiu homo devus legi ĉi tiun libreton, kiu fakte estas nur longa artikolo. Longa, eleganta, rafinita laŭforme kaj laŭenhave, ia leciono pri tio, kiel eblas dresi la penson kaj la vortojn kaj metis ilin je la servado de subtileco, de saĝeco, de kreemo, de arto. Ĝi trafas trans la instruan (kaj utilan!) distingon inter funebro kaj melankolio – kiuj estas ja kontraŭaj, multe pli ol tion ŝajnigas supraĵa rigardo. Ĝi ekzemple faras ĉi tiun komenton, prenitan el alia teksto, pri tio, kion ni ĉiuj serĉadas, foje obsede:

“... oni povas diri, ke la intenco, ke la homo estu feliĉa, ne troviĝas en la plano de la ‘Kreado’.”

                Restas la nocio: funebro solviĝas per si mem, ĉar ĝi lokiĝas en la tavolo de konscia egoo; melankolio/depresio revenas al la nekonscio kaj kaŝas koleron, narcisismon aliformitan. Ĉe la plendado de melankoliulo kaŝiĝas akuzado.
                Oni ne devas simple konsenti pri tio, oni devas pensi. Same kiel pri ĉi tiu konsidero de la senindulga konanto de la homa animo, rilate al la melankoliulo, kiu konstante sin malŝatas:

“Kiam, en sia intensa memkritikado, li sin priskribas kiel malindulon, egoiston, malhonestulon kaj dependulon, kiu ĉiam nur zorgis pri kaŝado de siaj propraj malfortecoj, eble niaopinie li sufiĉe alproksimiĝis de memkono, kaj ni demandas nin mem, kial necesis malsaniĝi por atingi tian veraĵon.”

“Funebro kaj Melankolio” estas unu el tiaj tekstoj, al kiu oni devas reveni. Estas tre probable, ke ĉiu alia ravita leginto trovos aliajn angulojn kaj legmanierojn. Kaj ke mi mem, kiam mi relegos ĝin, elektos ankoraŭ aliajn. Pro tio temas pri klasikaĵo. Dankon, frato.

domingo, 28 de dezembro de 2014

A DOCE FACE DE SANDRA




A Justiça argentina concedeu habeas corpus a Sandra, uma orangotango ruiva que passou cada dia de seus 29 anos de vida no cativeiro.
Duas expressões me perturbam na notícia: a expressão facial de Sandra e a expressão verbal “pessoa não humana” com que se descreveu a beneficiada. Foi assim que se justificou a decisão: trata-se positivamente de uma “pessoa”, pois que aprende, tem sentimentos, toma decisões e se comunica. Faz jus portanto aos tratos que merecem todas as pessoas, entre os quais, destacadamente, o da liberdade e o da dignidade de viver em paz.
Resta compreender o que é uma pessoa não humana. Simples. Não é humana porque não é formada, geneticamente, da mesma estrutura molecular que configura a espécie Homo sapiens (embora fique bem perto). Sobra a conclusão de que é uma pessoa de outra espécie – a espécie dos orangotangos. O que não lhe retira o caráter de pessoa, no sentido de que tem individualidade. Ela é Sandra, não é outro orangotango. É peculiar.
Quem ainda tiver alguma dúvida, ignore esse breve arrazoado acima, acesse o youtube e contemple com atenção a doce face de Sandra.


LA DOLĈA VIZAĜO DE SANDRA

La argentina Justeco donis habeas corpus al Sandra, rufa ina orangutano, kiu pasigis ĉiun tagon de siaj 29 vivojaroj en kaptiteco.
Du esprimoj min perturbas el tiu informo: la vizaĝesprimo de Sandra kaj la lingva esprimo “nehoma persono”, per kiu oni priskribis la favoritinon. Tiel oni pravigis la decidon: temas fakte pri “persono”, ĉar ŝi lernas, sentas, decidas kaj komunikas. Ŝi do rajtas ricevi la traktadon, kiun meritas ĉiuj personoj, interalie  precipe liberecon kaj la dignon vivi en paco.
Mankas kompreni, kio estas nehoma persono. Simple. Ŝi ne estas homa ĉar ŝin ne formas genetike la sama molekula strukturo, kiu karakterizas la specion Homo sapiens (malgraŭ ke tre simila). Restas do la konkludo, ke ŝi estas persono de alia specio – la specio de orangutanoj. Kio ne forprenas de ŝi la econ de persono, en la senco ke ŝi estas individueca. Ŝi estas Sandra, ne iu alia orangutano. Ŝi estas unika.

Kiu ankoraŭ dubas, tiu ignoru la nelongan eksplikon ĉi-supre, aliru al youtube kaj kontemplu atente la dolĉan vizaĝon de Sandra.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

POR TRÁS DOS OLHOS

Aos domingos íamos passar a manhã no sítio do avô. Sempre um encanto. Corríamos atrás das galinhas e dos bezerros, encontrávamos ovos nos ninhos, aprendíamos a ordenhar e a distinguir piados no mato. Molhávamos os pés no riacho. Ali era bom ser criança.
Lembranças.
Eu gostava especialmente de ir ao curral e olhar de perto as vacas que se aproximavam da cerca para ganhar uma folha verde. Os olhos me fascinavam, grandes olhos luzidios que piscavam e tremiam com as moscas. E me olhavam às vezes longamente, cheios de mistério. Eu sentia um desejo reiterado e poderoso de saber o que pensaria aquele enorme animal, por trás daqueles olhos.
 Nunca soube.
...
Há dias um grupo de fanáticos entrou numa escola, no Paquistão, e massacrou uma centena e meia de crianças. Passado o horror, os fotógrafos registraram o resultado. Arrependi-me de ter visto uma das fotos.
A defesa foi uma fantasia. Vi-me diante de uma grade de ferro. Do outro lado está um fanático infanticida. Ele me olha fixamente. Sinto desejo de saber que pensamento existe por trás daqueles olhos.
Nunca saberei: é só um enorme animal.

MALANTAŬ LA OKULOJ

Dimanĉe ni kutimis pasigi la matenon en la bieneto de la avo. Ĉiam rave. Ni kuradis post kokinoj kaj bovidoj, ni trovadis ovojn en nestoj, ni lernis melki kaj percepti birdpepojn en la arboj. Ni plonĝigis niajn piedojn en riveretojn. Tie infanaĝo estis agrabla.
Rememoroj.
Al mi aparte plaĉis veni al la stalo kaj rigardi de proksime bovinojn, kiuj alproksimiĝis al la barilo por ricevi verdan folion. La okuloj min ravis, grandaj okuloj relumantaj, kiuj fermetiĝadis kaj tremetadis pro la muŝoj. Kaj foje rigardadis min longe, plenaj je mistero. Mi sentis ripetan kaj potencan deziron scii, kion pensas tiu grandega besto, malantaŭ tiuj okuloj.
Mi neniam eksciis.
...
Antaŭ kelkaj tagoj, grupo da fanatikuloj envenis lernejon en Pakistano kaj masakris ĉirkaŭ cent kvindek infanojn. Post la hororo, fotistoj registris la rezulton. Mi pentis, ke mi rigardis unu el tiuj fotoj.
Mia defendis min per fantazio.
Mi vidis min fronte al ferkadro. Ĉe la kontraŭa flanko staras unu infanmurdinta fanatikulo. Li rigardas min fikse. Mi eksentas deziron scii, kia penso ekzistas malantaŭ tiuj okuloj.

Mi neniam scios: tiu estas nur grandega besto.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

PARESTESIA



Um ponto
na perna
da pessoa
pinica
que parece
que pousou
pernilongo
pronto
para
picar.
Ou pulga,
carrapato,
ou fiapo
de pano
ou de pena.
Pura
impressão:
apenas
impertinente
provocação
da pele.
A parestesia é a paranormalidade do corpo.

PARAESTEZO

Punkton
de piedo
piketas
pinĉe
pulo
impertinenta.
Aŭ splito
de pajlo,
aŭ de plumo?
Pluvero?
Senpere
perdiĝas
la propra
perceptokapto
la pura,
kaj aperas
paralela
miskoncepto
konspira,
trompa,
petola.
Paraestezo estas paranormaleco de la korpo.

domingo, 30 de novembro de 2014

PEREGRINAÇÃO



São boas as palavras que dizem,
cajado na mão dos peregrinos;
poderosas as  que silenciam,
lufada na face dos peregrinos.
São boas as palavras que soam,
mel na boca dos peregrinos;
sólidas as  que pairam,
silvo no anoitecer dos peregrinos.
São boas as palavras que ensinam,
sandálias sob os pés dos peregrinos;
purificadoras as da dúvida,
aves migratórias no céu dos peregrinos.
Há palavras para os pés,
para os olhos,
para o coração.
Mas não há peregrinação sem palavras.

PILGRIMADO

Estas bonaj la vortoj, kiuj diras,
bastono en la mano de pilgrimantoj;
potencaj tiuj, kiuj silentas,
blovo sur la vizaĝon de pilgrimantoj.
Estas bonaj la vortoj, kiuj sonas,
mielo en la buŝo de pilgrimantoj;
solidaj tiuj, kiuj ŝvebas,
siblo en la vesperiĝo de pilgrimantoj.
Estas bonaj la vortoj, kiuj instruas,
sandaloj sub la piedoj de pilgrimantoj;
purigaj tiuj, kiuj pridubas,
migrantaj birdoj sur la ĉielo de pilgrimantoj.
Ekzistas vortoj por la piedoj,
por la okuloj,
por la koro.
Sed ne eblas pilgrimado sen vortoj.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

ARTESANIA



Era moça bondosa.
Por isso se admirou muito quando ficou sabendo que havia a palavra artesania.
Falou artesania  várias vezes, em voz alta.
Ouviu então uma profusão de violinos.
Ouviu o sereno da noite,
seu próprio medo de não existir,
o gosto de um fruto exótico,
a sede,
a fome,
a deselegância dos cotovelos,
as euforias da primavera.
Ouviu a própria ovulação, no âmago,
a cor dos olhos,
bem como as tentações de cada entardecer,
os desejos, os desejos.
Gostou tanto que botou nome na sua gatinha: Artesania.
A gatinha apreciou deveras e passou a miar poesia.


TAJLI

Ŝi estis bonkora junulino.
Tial ŝi tre miris, kiam ŝi eksciis, ke ekzistas la vorto tajli.
Ŝi parolis tajli laŭte, plurfoje.
Tiam ŝi ekaŭdis amason da violonoj.
Ŝi aŭdis la noktan roson,
sian  propran timon pri neekzisto,
la guston de ekzotika frukto,
soifon,
malsaton,
la malelegantecon de kubutoj,
eŭforiojn de printempo.
Ŝi aŭdis sian propran ovoladon, interne,
la koloron de la okuloj,
same kiel la tentojn de ĉiu vesperiĝo,
 la dezirojn, la dezirojn.
Ŝi tiel multe ŝatis, ke ŝi nomis sian katineton: Tajla.

Al la katineto tio efektive plaĉis, tiel ke ĝi komencis elmiaŭi poezion.

domingo, 9 de novembro de 2014

LIBERDADE


Ao fim do dia os passos se tornam  lentos,
sólidos, a bater o chão  com a correta presteza,
como em obediência  a um rumo muito antigo,
isentos de busca,
libertos de indagação.
Ao fim do dia os olhos já não perscrutam,
apenas divisam os justos contornos,
como a traçar as coisas do mundo que sempre existiram,
desapegados da  luz,
ao largo da sombra.
Ao fim do dia as mãos seguram com calma o bastão,
amolentadas por doce fadiga,
como cordas que amarram navios, num cais deserto,
esquecidas de sua função,
desenoveladas.
Ao fim do dia, após o trabalho,
o homem pode enfim respirar,
comer um prato, beber um copo,
sentar-se, arriscar um palpite sobre o tempo.
Já não é preciso explicar a vida.


LIBERECO

Je la fino de la tago la paŝoj fariĝas malrapidaj,
solidaj, kaj frapas la grundon per ĝusta lerto,
kvazaŭ ili obeus  tre antikvan direkton,
sen serĉado,
liberaj de demandoj.
Je la fino de la tago la okuloj jam ne gvatas,
apenaŭ duonvidas precizajn konturojn,
kvazaŭ ili strekus tion, kio ĉiam ekzistis en la mondo,
senatentaj pri lumo,
preter ombro.
Je la fino de la tago la manoj trankvile tenas la bastonon,
moliĝinte de dolĉa laceco,
kvazaŭ ŝnuroj ligitaj al ŝipoj ĉe  senhoma kajo,
kiuj forgesis sian celon,
malbobenitaj.
Je la fino de la tago, post la laboro,
homo  fine povas spiri,
manĝi la enhavon de telero, trinki la enhavon de glaso,
sidi, riski prognozon pri la vetero.
Jam ne necesas ekspliki la vivon.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A FUGA



Era uma construção em ruínas que mais parecia um labirinto. Perto dali espocavam tiros. Deparou com um soldado fortemente armado e enfiou pelos corredores. Parou, esperou. Logo reapareceu o soldado. Nova fuga, agora mais longa e mais funda pelos cômodos que se sucediam interminavelmente. Silêncio. Até que a sombra brotou de novo num canto. Mais rápido, mais fundo. Viu-se agora num cômodo sem saída. Nem janela, nem porta, nem corredor.
Decidiu então que era hora de acordar.

FORKURADO

Tio estis ruina konstruaĵo, kiu pli similis labirinton. Proksime de tie eksplodis pafoj. Li ektrovis forte armitan soldaton kaj enkuris en koridorojn. Li haltis, atendis. Baldaŭ reaperis la soldato. Denove forkurado, nun pli longa kaj pli profunda tra ĉambroj, kiuj sinsekvis senfine. Silento. Ĝis reaperis la ombro post angulo. Pli rapide, pri profunden. Nun li troviĝis en senelira ĉambro. Nek fenestro, nek pordo, nek koridoro.

Tiam li decidis, ke estas taŭga momento por vekiĝo.